Poesia no ar rarefeito

Ela me olha de lado
Eu me contorço para ve-la
Estamos presos a dez mil pés
Rumo à Sampa
Nunca nos vimos
Mas ela sorri
Deve ser seu hábito
Quem tem uma boca tão linda deve sorrir sempre
Fala de seu mundo de funcionário público
Certamente não sabe do heroísmo dos insetos
Força que move o planeta
Da chuva de meteoros que despenca em algum lugar para saudar sua beleza
Da solidão das baleias desgarradas

Lá fora a lua transforma as nuvens numa lagoa de prata
Lá embaixo alguém espera chegar a manhã para retomar a vida

Volto o rosto e ela dorme enquanto caio na real
Nunca mais nos veremos, é quase certo
Meu amor instantâneo rumo à Sampa
Não sou livre e tenho pouco tempo
Quem sabe em outro voo
Em outro século

Penso: o que faria se houvesse um aceno?
Poderíamos passar a noite
Debaixo desta lua imensa
Eu assopraria palavras na sua pele
Com meu hálito quente
Algo iria desmoronar
Para que algo, amedrontador, se erguesse
Talvez eu ficasse só
Com meu espelho quebrado
Findada a noite
Ela seguiria ao futuro
Eu com as lembranças
Que não seriam doces ou amenas
Fossem quais fossem
Mas doloridas e ácidas
Sim, cabelos longos, pele morena
Olhos negros
Talvez trinta
Ela, que o acaso colocou a dez mil pés
Ao meu lado
E eu, a seus pés

Diga-me o que lhe faz sofrer
Se não puder ajudar, ficarei triste também
Não faltam motivos. Perdemos sempre.
O tempo come todos seus filhos
Mesmo que sejam de pedra
E a cada lasca, a ampulheta esvazia um naco
A memória corta nas duas faces
Nos recorda o que já perdemos
E nos espera para o último beijo

Você é tão linda
Mas o mundo é duro
Ah se eu tivesse ao menos um dia
Sua atenção
Lhe mostraria
Por onde rondam os cometas
Lhe contaria o segredo do destino daquela estrela que batizei com seu nome
E ao chegar seu corpo quente junto ao meu corpo morno
Nossas peles trocariam calor e isso me acalmaria
E então poderíamos ficar em silêncio
Até que o fogo abrandasse
E eu lhe tomaria pelas mãos e descalços
Sentiríamos no calor dos passos a história milenar dos minerais

Talvez algo tenha lhe passado quando me viu
Será? Mas já não há caminhos ermos para lhe encontrar perdida e lhe ajudar
Não há magia que nos transporte além deste momento em que vivemos
Tão separados
Tão impossíveis



Nenhum comentário: