O homem que virou a cruz
Zé Targino era homem valente. Quando soube da cruz que chorava na subida do morro, onde ninguém passava depois da Ave Maria, não titubeou.
Montou o cavalo perto da meia-noite e seguiu pela noite enluarada. Antes mesmo de avistar a igreja ouviu a choradeira. Apeou, aproximou-se da pequena cruz e perguntou:
— Por que você chora?
A cruz respondeu, aos prantos:
— Porque me colocaram ao contrário.
Zé Targino arrancou a cruz da terra, virou-a e tornou a fincá-la.
Nunca mais se ouviu falar da cruz que chorava. E a fama de coragem de Zé Targino cresceu ainda mais.
Nem a terra há de comer
— Mas como o corpo fica seco? E se morreu e foi enterrado, como ainda vive no Coimbra? E por que não pula água? E o que acontece se ele pegar a gente?
— O que você precisa saber é que corpo seco foi gente ruim demais. Tão ruim que nem a terra quis comer. A carne some, mas ele continua por aí, andando em bando pelas matas, procurando gente.
Depois disso vinha sempre o conselho:
— Melhor não brincar por aquelas bandas. E trate de respeitar pai e mãe, andar direito e ser educado pra não cair nessa desgraça.
Até hoje não sei por que corpo seco não pula água. Mas, por garantia, quando passo pelo Coimbra, sempre reparo onde corre o riacho mais perto.
O galho do capeta
A estrada do Paiol, fechada de bambu, virava um breu nas noites sem lua. A gente passava ligeiro, escutando os curiangos e rezando baixo. Num trecho da estrada, cavaleiro nenhum seguia reto: sempre alguma coisa derrubava o chapéu.
Quando contaram isso ao Zé Targino, ele deu risada e saiu sozinho numa sexta-feira escura, montado no cavalo. Chegando perto do lugar maldito, virou o corpo na sela e ficou espiando.
Foi quando aconteceu.
Um galhinho torto de bambu envergou no vento e pescou seu chapéu no ar.
No dia seguinte, desbaratou o assombro na venda do Zé Felix. Teve gente aliviada. E teve quem não acreditou.
A mãe do ouro
Diziam que havia ouro escondido dentro da Pedra do Baú. Ouro fenício, deixado ali por homens antigos que subiram a Mantiqueira para cultuar o Sol. Outros juravam que eram riquezas enterradas por escravizados fugidos das Geraes.
Nas noites frias alguém sempre apontava para o céu:
— Tá vendo aquela luz caminhando devagar? É a mãe do ouro.
E a luz vagava silenciosa sobre as montanhas, rondando a Pedra, guardando seus segredos.
Continuo olhando aquelas pequenas luzes atravessando o céu da Mantiqueira. Aprendi seus nomes, suas órbitas, suas distâncias. Mas, quando cruzam devagar sobre o Baú, alguma coisa antiga ainda prefere chamá-las de mãe do ouro.
Os bois encantados do Tião Marciano
Depois que Tião Marciano morreu, ninguém mais conseguiu tocar seus bois. Dizem que foram encantados junto com ele. Nas madrugadas de vento os mugidos ainda descem pelas montanhas, e há quem jure ouvir o ranger de um carro de boi cruzando o céu.
Ligeiro, Fumaça, Melindroso, Rochedo, Matinada, Estrela, Montanha, Ponteiro e Sereno já não obedecem chamado cristão. Só o vento reúne a junta encantada.
Quando passam mugindo na escuridão, a natureza inteira se arrepia.
E, no fundo da madrugada, às vezes ainda se escuta a voz do Tião Marciano chamando a boiada.