do balaio 11

não me negue, o dia
ao coração ruidoso
um pouco de descanso
ao sol
o que escorre e invade
os meus sentidos
transborda e entope
os meus ouvidos
quero silêncio.
quero paz.
e luz.
e só.

Meninos do Brasil

que futuro terão
os meninos do Brasil?
serão felizes no futuro?
acaso sobreviverão
no país em que se matam
meninos?
trabalharão em empresas
engordando os lucros
dos gordos patrões?
receberão placas comemorativas
“o empregado perfeito”
“o melhor pai do mundo”
“o amigo de todos”
serão policiais
e baterão e prenderão os
meninos?
os meninos do Brasil...
roubam-lhes os sonhos e
rapidamente deixam de ser meninos
envelhecem cedo por estas bandas
(embora mínimos)
por isso há
tão poucos meninos
no Brasil

Contrabando

bandos na fronteira
na borda do nada
para lá do mato
ouço tiros e corro
que roubada!
na estrada salteadores
beiram a cidade
assombrada
(eu sou contra bandos
prefiro andar só)

do balaio 10

generais rondam
ameaçam dia a dia
mas não iniciam a guerra
que diariamente adiam

olham a terra
tão devastada
sua sinfonia
acabada

canhões que não soam
balas pousadas no ventre de lata
navios ancorados
aviões em seu dorso, piratas

a noite sonham emboscadas
conquistas triunfantes, combates
entre pijamas de flanela
e leite com chocolate

do balaio 9

garrafas quebradas
vazias no dia
cheias de ar
esperança avança
bate na vida, recua
cilada armada no rastro
das minhas pegadas

você é armadilha armada
é cilada
no rastro das minhas pegadas
é uma cama de pedra
num refúgio sem teto
é abrigo
num ninho de pancadas

Eu, palhaço


fechem todas as saídas
grita o palhaço
ninguém sai, e comece o espetáculo
salto do ônibus no ponto errado na tarde chuvosa com o bebê no colo
perdi os sapatos que custei a comprar
a ladeira parece sem fim e a criação, um fardo
o espetáculo recomeça todo dia
o picadeiro é um círculo como o anel que tu me deste e que o homem não separa
amassar o pão, seguir a vida
este é o meu reino cheio de silêncios insuportáveis
de cheiros e náuseas
de destinos e causas
meu nome é outro e me foi dado na fogueira, na selva
rasguei o papel em que foi escrito e passo os dias a procurar os pedaços
sem ele só me resta seguir o espetáculo

um palhaço fora do circo não é um palhaço
um palhaço fora do circo não é um palhaço
um palhaço fora do circo não é um palhaço

do balaio 8

o mundo é grande
mas é antigo
e é aí que mora o perigo
ponha de lado o que sabe
não finja de morto pro novo
que, quem sabe, ele te arraste
pro voo

Canis et circenses

é preciso alimentar os cães
para que não mordam a carne
para que sua saliva ácida
não se misture ao doce sangue

é preciso afagar os cães
para que seus latidos
não espantem as aves
para que não emudeçam as estrelas
únicas luzes no meu breu

é preciso domesticar os cães
para que não invadam meu sonho
chapinhem na lua
refletida na poça no caminho

é preciso confiar nos cães
para que me conduzam
de volta ao lar

do balaio 7

o poeta anda preso
envolto em tralhas
cercado por trevas
o pensamento não tange
sozinho ou em bando
e assim, parado
é um mago sem rei
e a poesia, ah, essa
se um dia foi, agora ia
(se ria)

do balaio 6


ir
onde ninguém jamais
foi
pelo prazer de
perder-se
sem mapa
pegada
ou
depois

Elegia 2016

país caduco
onde políticos são atores
e os atores políticos canalhas
e os melhores não atuam e tentam
falar a sério
todos envoltos na gigantesca treva

un clown sur le cirque est pas un clown
un clown sur le cirque est pas un clown
un clown sur le cirque est pas un clown


Por uma fresta

se você me quiser
deixe uma fresta na sua vida
nem que esteja
na caverna mais profunda
onde hiberna o urso
descerei levando a tocha
puxarei até a superfície
para lhe encontrar vou recuperar o mapa
onde ancoramos nossa barco de papel
vasculhar as nuvens a procura de alguma pista
ou, pelo vão dos mundos
entrarei no seu sonho
lá decerto lhe encontrarei
e será uma festa
nosso reencontro

In rugas

No espírito
Não carrego
Rugas

A nova dimensão do tédio

O mundo
É grande
Mas é
Antigo

do balaio 5

os mesmos escrotos de antanho se envolvem nos esgotos de sempre e gritam e pulam e batem se sentam reticentes em cadeia nacional são laicos e loucos religiosos perigosos armados ou não entre os dentes renitentes derrubando o que vai pela frente sem dó nem piedade fazendo suas maldades e o povo pelado debaixo de seus sovacos fedendo no meio de seus pelos fedorentos ou das botas feito um monte de bostas sofrendo

do balaio 4

este país caduco onde os atores são políticos canalhas e os melhores tentam falar a sério todos envoltos em uma gigante treva um palhaço fora do circo não é um palhaço

do balaio 3

é mais fácil escapar quando se tem longas pernas basta pular o muro quando se é pequeno não se tem iniciativa e o caminho dos grandes não oferece escape e se os dois residem no mesmo homem fugimos pela metade deixando para trás um pedaço de nós que fica acenando dando tiau e que viverá uma vida miserável submetido a torturas correndo para não ser pego e acabando feito um rato miserável que se acostuma às sombras e às botas

do balaio 2

meu caro professor você se foi levando consigo uma parte de nossas vidas que não serão mais as mesmas após sua partida bem que eu desconfiava que alguma coisa estranha estava urdindo lá dentro que o tecido estava roto e desbotado e que você não estava mais disposto a remenda-lo com as suas mãos  agora duras e imóveis que já não abraçam as guitarras que tanto amava tornando mais difícil e sem graça o caminhar nesta são paulo onde não colhemos um morango para sempre

Vó Ana

ouve longo e baixinho
a cantoria das velhas senhoras
rezando terço, orando pelas almas

depois assam bolo de milho
passam café (bem fraquinho)
conversam sobre filhos e netos

aí se despedem
correm para casa
assistir as novelas

Temos pouco tempo

traga notícias
de onde não fui
leve-me até lá

conte uma história
para chorarmos
há tantos motivos

entregue-me o pulso
chega de silêncios

temos pouco tempo

para perder o mapa
naufragar nalguma ilha
ou ancorar nosso barco de papel
nalguma nuvem

agora somos livres
mas temos pouco tempo