Muro no rumo

Embora viaje
Países, cidades
De mim, não saio
Na geografia percorro
Mapas, itinerários
Mas, sina, não me movo
Do si, mesmo
Estacionado aqui
Reclamo e insulto
Pedi ser muitos
Mas, pouco, sou

Corro, feito louco
Dobro a esquina e me deparo
Comigo, à espreita
A me observar
Dentro do oco
Corpo onde moro
Não desgrudo
Junto, uno

Apenas no deserto
Os fantasmas
Não assombram

Lentos, enormes vermes arrastam
Facas que furam e vazam pústulas
Neutro, o movimento
Aprisionado na jaula da alma
O animal homem urra
E o espírito, cala-se

Perdi-te
Para
Ter-me
Entendes?

Na orla



     NA
OR
     LA
NA
     OR
LA
     NA
OR
     LA

Ruir é ruim


PACATA MARCHA
É A MARCHA A RÉ

AVANÇAR É ANDAR
NA LINHA DO RISCO

PARAR
É
CAIR

E AÍ
VOCÊ DECIDE

IR
OU RUIR

Poesia hoje


POLAROID
                DE
                PALAVRAS

Germen

Algo cresce
Na sombra, sob os viadutos
Para onde varremos o lixo
Urbano (humano)

Cresce no metro abarrotado
No silêncio em que teclamos
No barulho dos fones de ouvido
No cansaço do retorno às nossas casas suburbanas

Cresce e é impulsionado
Pelas mentiras que nos arremessam na cara
E que soam bofetadas
Cresce e é adubado pelo miserável salário

Algo progride sem que saibamos
Exatamente
O motor de sua expansão
A química de sua reprodução
O furor de seu crescimentos

Parece que se esconde
Para se preservar
Para que não o reconheçamos
Para que prospere livre
Até o final momento
Em que se apresente
Em toda sua força
Poder e glória

A mulher da fila

As escadas mecânicas repõe passageiros de fones de ouvido
Os trens enlatam o povo ordeiro e manso que segue ao inexorável dia após dia
Alguém insiste em vender algo que ninguém compra
A mulher gorda não se movimenta
Fixa
Na 
Fila
Aguarda
Parada

pai

pai
há 24 anos você me deu o melhor papel da minha vida
pai
e no meu egoismo eu não desconfiei, de imediato, como iria transformar minha vida
a princípio fingi que era possível
manter o mesmo alucinado ritmo
a correria dos meus dias misturados
à lucidez & loucura
à pão, brasas e lírios
eu era mais tolo, porém mais crédulo
e seguia certo de que adiante
tudo tudo ia dar pé
mas aí você chegou e consertou as coisas
e me presenteou com a grande experiência
um espelho para refletir minha beleza
a oportunidade de aprender a se doar ao outro
de aprender o sentido firme de amar
você me convidou para deixar o curto caminho longo
e caminhar contigo no longo caminho curto
onde desde então bato minhas pernas
errando mais que acertando
dizer mais o que neste dia em que viemos ao mundo? você como homem, eu como pai
que palavra cabe em nossos ouvidos para expressar o tanto, o muito
que é compartilhar esta existência contigo?
aprendo a cada dia e quero ser um homem maior, um homem melhor
para ser digno de nossa amizade
embora fraco, vacilante
embora humano, imperfeito
embora mortal, frágil e medroso
hoje é o nosso aniversário
e eu vim aqui para agradecer o presente que me você me deu
24 anos atrás, no dia em que pude ouvir a palavra mais linda que ainda ouço
a cada dia que falo contigo
pai

obrigado meu filho, e parabéns

O ponto de mutação é o momento certo para saltar

I

meus fantasmas urram no alto da igreja
é um suicídio
seus gritos racham as torres
eu me amedronto
no alto circulam pássaros
aguardam a queda de suas carcaças
aves se alimentam de sonhos
ou pesadelos
os berros aumentam a voltagem e sua fome
nervosa
uma velha senhora retira dos cabelos a chave
só ela nos pode libertar desta prisão (o medo, a morte)
ela roda a chave na ponta do cordão de ouro
vejo o rastro de luzes
e me amedronto
as sombras se agigantam e suas mãos
escurecem a pequena praça
é um sinal de adeus
goodbye yellow brick roads
é hora de recolher-se
é hora de encolher-se
à miserável solidão humana
cheia de pontas
cheia de espadas
cheia de cordas
e trapaças

com cabelos brancos encaramos o futuro?
mas que futuro há?

só há o presente
só existia o presente
só existirá o presente

II

o primeiro passo é o mais longo
entre a decisão e o movimento
há um silêncio de anos
o corpo vem atrás
escravo arrastando correntes e carne e músculo
escravo dócil
cheio de banzo
houve o tempo de sol e água
de pão e rosas
de vinho e beijos
mas ele não reclama
vem atrás largando coágulos, sangrando
nele não cabem todos os meus ais
sobram sonhos, almas demais
eu sou o criador destes extraordinários cenários
onde não chego
não alcanço
mas o corpo, manso
sem queixa
segue trôpego, bêbado, em balanço
só ele pisa no hoje
onde existe o presente

III

cruzei em frente à capelinha
nela, um dia, celebramos os vivos
e acendemos velas
e incensos
debaixo do céu imenso
fortes, a coragem corria nas veias
mistura de loucura e fé
de inocência e estupidez
caminhos de terra, pó e areia
barulhos de mato, bichos
cheiros no vento vindo de outros lugares
essências de marrakeshi, temperos do ceilão
onde foram? onde estão?
perdidos no presente
habitantes do ontem
deste nada que é o tempo
cão sem dono mordendo
trampolim para o fim
corda esticada
záz!

IV

chego no mar
a brancura plana do sal
aqui não se morre caindo
sua profundeza é outra
e adquire-se passo a passo
onda a onda
sentado, de pernas cruzadas
olhos fechados
ouço a música das sereias
e não sei se me perco por dentro
ou nesse dia horizontal
não tenho mastros onde me amarrar
nem cera para os ouvidos
e ouço a música silenciosa das sereias
e me amedronto
sinto-me pequeno diante do destino
e sei que o outro é a medida para a redução do espanto
não há mistério
pois tudo é mistério
aqui, caminha-se evitando queimar ao sol

proseguir acordado
loucura, demais

V

a violência afirma a supremacia das nossos dúvidas
somos frágeis diante das máquinas
máquinas fazem arte enquanto os homens calculam
pobre dos nossos deuses diante da força das engrenagens
parecem hippies envoltos em lata
retiramos energia da terra e por isso morreremos antes que ela se destrua
novidade que já não cabe nos jornais que ninguém mais lê
hoje alguém se casou, hoje alguém se separou
a calma é predicato das feras
o resto é instinto
ou lorex
a natureza fala
mas não ouvimos


Rala rala

branquela
quero       trégua
vamos sair desse
                  mela mela
afinal deste-me 
                  trela
não é justo ficarmos
apenas no rela rela

Desvir

Passar a passos mínimos
Sem abalar a superfície
E quando alguém já não me ver
E desconfiar se eu estive
Ou fui, é que sequer cheguei

Pais e filhos

Filhos não mudam
Desde que o mundo 
É mundo
Agem segundo
O que lhes manda
O impulso

No fundo somos
Mesmo
Os mesmos

No fundo somos
O que fomos

O grito

Tento alertar os padres
Que as torres ruiram
Ser amigo dos mansos
Abraçar o pé de vento
Pousar no Nepal
Tento gostar
Destes dias digitais
Sem pegadas, rastros, marcas
Tento a poesia
Embora medíocre
Insisto
Neste grito
Abafado, contido

Paraisos artificiais

A minha deusa é negra
Como as manhãs das noites não dormidas
Ela está nua e me convida para um beijo
E eu sei que este beijo será
Frio como a neve

Ela me convida a uma viagem sem volta
Pois seu beijo vai me entorpecer
E eu não vou querer deixar
Este paraiso congelante
Onde nos sentamos para observar
A explosão das super novas

Fora do lugar

Poemas em ponta de faca
Bússola equivocada
Rumo na jornada
Nada, nada, nada

Aperto o play
E nada, nada, nada
Tá quebrada
A vida tá quebrada
Mas dá para consertar

Anjos e guerras

Cansado de guerra
Embora empunhando a palavra
Em nova batalha

Não sei o sentido
(Talvez soubesse
Mas esqueci)

Se venci, não levei
Se levei, não percebi

No entanto lutei
Mesmo diante do sem sentido 
Da lida

Destroços, restos, pragas dos derrotados
Degolas, açoites, campanas durante a noite

E o espírito, sempre, entre os dentes

Fever

Doença
Delírio
Chá de lírio
Febre ferve a verve
Na selva do quarto
Do sonho tão louco
Espumo
Suo
Tusso
Os pulmões ardem
Os olhos idem
Eu queimo
E deliro

Sentimento torto

Olhar errado
De esgueio, de lado
Ao invés de direto, no meio

Pensar enviasado
Confundir o importante 
Não contentar-se com o bastante
Viver inconformado

Sentir um palpitar a cada instante
Nunca a paz
Que jamais
Brota num coração inconstante

Desbunde

Não uso gravata
Nem terno
Prefiro tênis
Sou meio desbocado
Para um cara da minha idade
"Que caralho"
Vivo repetindo
No meu espanto diário
As coisas,
Ah, as coisas
São tão fortes as coisas, caralho

Eu, super

Tento ser
Super bacana
Mas apenas sou
Super babaca
Na zona confortável
A serviço da irrelevante
Vida diária
(no inverno os dias curtos
e escuros
apertam as escaras
que pulsam)

Poesia em fuga

As palavras somem
E ficamos assim
Como um pneu furado