Lição de história

tem
a culpa deste estado
é de quem
tem
a culpa deste estado
é de quem?

Trem fantasma

Rasga a noite
Sem destino
Trem sem rumo
Clandestino

Trem noturno
Trem fantasma
Sem controle
Sem chegada

Corre pela
Madrugada
Sem destino
Sem chegada

No deserto
A jornada
No escuro
A emboscada

Nunca chega
No destino
Trem sem rumo
Clandestino

Noite adentro
A vida inteira
Esperança
É passageira

Sem saber
Onde vai dar
Rasga a noite
Secular

Trem sem rumo
Clandestino
Corre pela
Madrugada

Trem noturno
Trem fantasma
Sem destino
Sem escala

No deserto
A vida inteira
Esperança
É passageira

Uma história
Tão antiga
Nem se lembra
Da partida

Trem noturno
Trem fantasma
Sem destino
Sem chegada 

Bem vinda

D/F#                            Bm
quem bate na porta agora
G      D/F#           Em  A7
chegou em boa hora

D/F#                            Bm
há fomes e tempestades
G D/F#  Em                  A7
mas sempre seja esta tarde
          
                      Dm
em que chegastes
         D7                               Gm6
prá remendar os  nosso dias
A7                  Dm
prá nos lembrar
          D7                                   Gm6
que a vida veste a mesma arte
A7                 Dm
que ela inventa
         D7                      Gm6
as suas próprias danças
 A7               Dm
renova em ti
         D7                   Gm6
as nossas esperanças

A7               D7+
sejas bem vinda
                                     Em7+
às nossas mãos floridas
                     C7+                                    A7   
e algumas noites um tanto esfarrapadas

A7               D7+
segue conosco
                                     Em7+
durante a empreitada
                 C7+
aonde estamos
           G#7+        G7+

para onde vamos

Chico Migalha

ele é tipo
tanta gente
paga mico
diariamente

ele é chico
chico migalha
vez por outra
se atrapalha

tendo nada
tá contente
triste sina
de tanta gente

cara ordeiro
que não chia
paga mico
todo dia

chico migalha
engraçado
na desgraça
acha graça

brasileiro
o triste chico
todo dia
paga mico

chico migalha
odeia gente
canalha
e indecente

chico migalha
cara do bem
que assim seja

amem

Poesia no ar rarefeito

Ela me olha de lado
Eu me contorço para ve-la
Estamos presos a dez mil pés
Rumo à Sampa
Nunca nos vimos
Mas ela sorri
Deve ser seu hábito
Quem tem uma boca tão linda deve sorrir sempre
Fala de seu mundo de funcionário público
Certamente não sabe do heroísmo dos insetos
Força que move o planeta
Da chuva de meteoros que despenca em algum lugar para saudar sua beleza
Da solidão das baleias desgarradas

Lá fora a lua transforma as nuvens numa lagoa de prata
Lá embaixo alguém espera chegar a manhã para retomar a vida

Volto o rosto e ela dorme enquanto caio na real
Nunca mais nos veremos, é quase certo
Meu amor instantâneo rumo à Sampa
Não sou livre e tenho pouco tempo
Quem sabe em outro voo
Em outro século

Penso: o que faria se houvesse um aceno?
Poderíamos passar a noite
Debaixo desta lua imensa
Eu assopraria palavras na sua pele
Com meu hálito quente
Algo iria desmoronar
Para que algo, amedrontador, se erguesse
Talvez eu ficasse só
Com meu espelho quebrado
Findada a noite
Ela seguiria ao futuro
Eu com as lembranças
Que não seriam doces ou amenas
Fossem quais fossem
Mas doloridas e ácidas
Sim, cabelos longos, pele morena
Olhos negros
Talvez trinta
Ela, que o acaso colocou a dez mil pés
Ao meu lado
E eu, a seus pés

Diga-me o que lhe faz sofrer
Se não puder ajudar, ficarei triste também
Não faltam motivos. Perdemos sempre.
O tempo come todos seus filhos
Mesmo que sejam de pedra
E a cada lasca, a ampulheta esvazia um naco
A memória corta nas duas faces
Nos recorda o que já perdemos
E nos espera para o último beijo

Você é tão linda
Mas o mundo é duro
Ah se eu tivesse ao menos um dia
Sua atenção
Lhe mostraria
Por onde rondam os cometas
Lhe contaria o segredo do destino daquela estrela que batizei com seu nome
E ao chegar seu corpo quente junto ao meu corpo morno
Nossas peles trocariam calor e isso me acalmaria
E então poderíamos ficar em silêncio
Até que o fogo abrandasse
E eu lhe tomaria pelas mãos e descalços
Sentiríamos no calor dos passos a história milenar dos minerais

Talvez algo tenha lhe passado quando me viu
Será? Mas já não há caminhos ermos para lhe encontrar perdida e lhe ajudar
Não há magia que nos transporte além deste momento em que vivemos
Tão separados
Tão impossíveis



Ocaso

Belo
Um dia
Foi

Elo
De gerações

O artista
Se suicida
Para que somente
A arte sobreviva

(Ele não vale
A pena)

Mínimas

é vetado aos parasitas moverem-se por conta própria

aqui passam as ondas de rádio do passado, que ninguém vê, ou ouve

formigas são super heróis

gurus fá foram crianças e derrubaram pássaros a pedradas

filósofos viraram artistas de TV, mas queriam mesmo ser galãs de novela

já fiz coleção de maços de cigarro que encontrava amassados no chão...hoje pouca gente fuma, e é proibido jogar papel na rua

passou um aeroplano sobre a minha cabeça e a moça sentada na janelinha está olhando lá embaixo, pensando como deve ser a minha vida

o pessoal de boné fala rápido mexendo os braços apontando o dedo mastigando palavras a isto chamam atualmente música

cultura é uma forma de nos adaptarmos à morte

a poesia é aprender a morrer

agimos sob protocolos. não temos quereres. não mudamos de idéia. funcionamos a contento até que a nossa mão de obra perde valor. aí somos sacados do jogo. ficamos à margem. então somos livres, mas nos falta tempo e força

o contrário desta situação em que o Brasil se encontra é a comadre Bere tomando conta dos meninos: não cobra nada e é confiável

macunaima seguindo rastro de cotia, cantando rap

eu prefiro o acaso. mas é noite, e tudo é previsível

por falta de dentes deixamos de saborear as durezas da vida. culpa das mães, que desde cedo nos afeiçoaram à coisas líquidas e engordativas

um animal fica melhor quando está com fome. e o homem?

não dou a mínima. não estou nem aí. sou eu que perdi as roupas, rasguei os cheques

Etílicas

Beba desse vinho
Ele embriaga
Alucina

Beba desse estranho vinho
Que cai direto no sangue
Sobe reto à cabeça
Ali estanca

Quem desse vinho bebeu
Perdeu-se
Pegou diversa trilha
Foi parar noutra ilha

A loucura
Está aqui
Na beira
Do copo

Confesso

Afundado no caos
Até o talo
Confesso
Marchei para ele

Não combati
Fugi da briga
Na hora do pau
Corri, até ali

Confesso, fui vil!
Confesso, menti!
Dormi demais, delirei
Agora já não sei
Se a vida é mesmo aqui
Confesso, não sei

Desistência

não quero mais
saber de mim
vou me largar
enriquecendo capitalistas
ouvindo música ruim
dando like no face
vou deixar o debate para os reaças
abdicar da razão
destreinar o olho para que
não veja além
do aparente 
faca sem corte que flutua a minha frente
e não mais retira a pele do presente

neste auto abandono
tipo desistência
vou seguir a multidão
para ver se consigo
diversão

Bem vindo

22 anos e não me lembro
como começou
era muita loucura naquela época
tive até medo de lhe juntar
naquela doidera
mas você chegou para remendar
minha vida meio rasgada

diga-me o que lhe faz bem
eu vou querer também
aquilo que você gosta
é a minha aposta

vou ao teu lado sem medo
sem planos, futuro, abrigo
sem vacilo, olhar de esgueio
bom mesmo é estar contigo

do balaio 11

não me negue, o dia
ao coração ruidoso
um pouco de descanso
ao sol
o que escorre e invade
os meus sentidos
transborda e entope
os meus ouvidos
quero silêncio.
quero paz.
e luz.
e só.

Meninos do Brasil

que futuro terão
os meninos do Brasil?
serão felizes no futuro?
acaso sobreviverão
no país em que se matam
meninos?
trabalharão em empresas
engordando os lucros
dos gordos patrões?
receberão placas comemorativas
“o empregado perfeito”
“o melhor pai do mundo”
“o amigo de todos”
serão policiais
e baterão e prenderão os
meninos?
os meninos do Brasil...
roubam-lhes os sonhos e
rapidamente deixam de ser meninos
envelhecem cedo por estas bandas
(embora mínimos)
por isso há
tão poucos meninos
no Brasil

Contrabando

bandos na fronteira
na borda do nada
para lá do mato
ouço tiros e corro
que roubada!
na estrada salteadores
beiram a cidade
assombrada
(eu sou contra bandos
prefiro andar só)